Se os olhos do dono engordam o gado, como fazem os míopes?

A Folha de São Paulo publicou em 21/06/2015 uma matéria sobre a professora, com muitos títulos acadêmicos, que levou oito meses para abrir um negócio que faliu em nove.

O que deu errado? O academicismo é tão diferente assim da vida prática?

Hoje a professora leva seu próprio case para a sala de aula, em uma humilde e excelente iniciativa de reconhecimento de falhas. Ela é seu próprio objeto de estudo. Admiro.

Falta aos empreendedores brasileiros reconhecer seus erros, e, talvez até tenha faltado a ela, durante os meses em que empreendeu. Mas como saber que o caminho que estamos tomando está tão equivocado assim? A mudança, na ocasião, era possível e viável? Como ela não enxergava isso???

Já participei ativamente da abertura e falência de uma sorveteria como a da professora citada na matéria. Acompanhei de perto, muito de perto, todo o processo – desde a abertura até a venda dos equipamentos no fechamento da empresa. E os erros, pelo visto, foram os mesmos, exceto pelo fato de que a professora não estava tão de perto e à frente do seu negócio como no caso da sorveteria que vi abrir e fechar – que era de uma grande amiga minha.

Se são os olhos do dono que engordam o gado, minha amiga estava engordando o gado dela sim, mas, certamente, seus olhos estavam míopes. E o gado que parecia estar engordando, não estava. Ela tinha uma visão distorcida do próprio rebanho.

Vou citar aqui os principais erros cometidos por esta minha amiga (que não vou divulgar no nome, mas posso conversar detalhes por e-mail)

Principais erros:

1 – Erro de reconhecimento de público-alvo. Quem eram – de fato – os clientes? Não adianta você achar que seu público é todo mundo. Ou todo mundo que gosta de sorvete. Você precisa saber onde vivem, o que fazem, que tipo específico de sorvete eles gostam, quanto estão dispostos a pagar, quais dias consomem mais, etc.

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Quem?

2 – Erro de posicionamento e praça (local). O negócio estava localizado em um ponto que não atendia ao público-alvo (lógico, ela não sabia – de fato – quem eram essas pessoas! Vide erro 1) e a justificativa da escolha do local era que  “aparentemente” o bom preço de aluguel compensava.

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Bom preço de aluguel? Mas e o público?

3 – Misturar dinheiro pessoal com o dinheiro da empresa. Confusão de despesas particulares e corporativas. Incontáveis “vales” eram retirados do caixa e sempre com as mais diversas justificativas: preciso comprar uma revista, um tapete lá para casa, preciso almoçar, preciso pagar a escola da minha filha.

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O dinheiro do caixa não é meu!!!

4 – A sorveteria não oferecia alternativas à sazonalidade do produto. O brasileiro já não consome muito sorvete…no frio então…menos ainda. Não somos como os italianos ou alemães, que adoram sorvetes no inverno. No frio, ofereça alternativas. Sorveterias também podem ser excelentes cafeterias e docerias.

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Está nevando, mas eu estou de boa aqui no meu sorvete.

5 – Material visual não era condizente com as qualidades do produto. O produto dela era excelente. Excelente mesmo. Mas seu material visual era poluído, amador, empobrecia demais o produto ao invés de valorizá-lo.

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Não. Este folheto tosco, não.

6 – Falta de treinamento e supervisão dos atendentes. Minha amiga não conseguia se impor gerencialmente. Os funcionários não utilizavam o padrão de uniforme adequado (não usavam os calçados apropriados, apresentavam unhas grandes, cabelo para fora do boné) e também não apresentavam comportamento e linguajar apropriado na recepção de clientes. Discussões entre funcionários eram comuns e minha amiga, além de não dar exemplo, também discutia ao invés de se impor profissionalmente.

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Hu-hul! Sozinhos na loja!

7 – Não havia nenhum tipo de parceria com serviços que poderiam alavancar as vendas trazendo o público à loja. Ou ainda que os produtos pudessem ir até os clientes. Parceria com hotéis, por exemplo. Vouchers, cupons de desconto, eventos, etc.

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Falta de motivação.

Quando digo que houve miopia, refiro-me ao fato de que tudo isto listado acima (e várias outras situações) estava evidente. Eu, por exemplo, sempre alertei e inclusive propus algumas medidas de melhoria. Mas sabem aquela velha máxima – “a pessoa precisa ver com os próprios olhos”? É isso. E ela não enxergava. Por mais que eu mostrasse registros, fatos, dados, tendências, etc.

Muitas vezes não adianta consultor, não adianta Sebrae, não adianta nada disso. Adianta a pessoa viver, errar, quebrar a cara e aprender com os próprios erros assim: falindo. São inúmeros os casos de fracassos por empreendedores que hoje são executivos bem sucedidos. Inúmeros! A questão está muito mais em saber reconhecer e aprender com as falhas.

Lendo a matéria, me parece que a professora aprendeu com os erros. O que já é um grande passo para seu amadurecimento como gestora, caso ela decida empreender novamente. Ou ainda que tenha percebido que ser empresária é diferente de ser empreendedora, e, muitas vezes apenas uma boa ideia e boa vontade não são suficientes. Que ela tenha sucesso em suas novas empreitadas!

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